Esta semana li/assisti duas reportagens sobre violência contra professores na escola. Em uma delas, um vídeo, narrava-se a agressão cometida por um adolescente sobre a diretora de sua escola. A mãe do aluno, assim como a própria repórter, faziam questão de enfatizar o "silêncio" da profissional que parecia estar querendo esconder algo enquanto que o aluno estava ali "contando a verdade dos fatos". Na outra, relata-se uma agressão coletiva na qual os alunos, após terem apagado as luzes, atiraram a lixeira contra a professora.
O que dizer disso tudo já que notícias como essas deixaram de ser novidade há muito tempo?
O que mais choca os profissionais da educação é o descaso da própria família do aluno quando uma agressão ocorre na escola. Os pais, salvo raríssimas exceções, posicionam-se do lado do menor agressor e acabam por inverter a ordem de responsabilidades e deveres da própria criança/adolescente.
Como não se sentir ameaçado(a) ao entrar em sala de aula e ter que "enfrentar" uma turma que potencialmente pode tudo?
Nessa hora, o professor esquece do planejamento, do currículo mínimo, das avaliações, da construção de conhecimento... (E há como culpabilizá-lo?) Ele apenas sente medo. Medo de, ao chamar a atenção de um aluno e tomar uma cadeirada na cabeça ou até mesmo um tiro.
São essas as condições de trabalho que os professores das escolas públicas enfrentam diariamente.
Como cobrar produtividade deste profissional, principalmente por meio desses "provões" unificados que os seus próprios alunos realizam, se ele não se sente seguro para sequer dar sua aula?
Covardia. Esse é a palavra que eu considero que melhor define o tratamento dado aos profissionais da educação atualmente. Há cobrança de todos os lados: do governo, das famílias, da sociedade, da academia, entre outras instâncias. E o que tem sido oferecido a esses professores que atuam nas escolas públicas? Críticas, péssimos salários, desrespeito e agressões físicas e verbais cada vez mais frequentes.
Como formadora de professores acabo me questionando o que eu posso dizer para os futuros professores que estão assistindo as minhas aulas de metodologia, didática etc. Não dá para deixar (apenas) para o professor de Sociologia da Educação abordar a questão da violência no trabalho.
Não dá mais para tolerarmos essa situação em nossas escolas. Caso contrário, onde iremos parar?
Ensinando Ciências na Escola é um blog que traz reflexões sobre a educação científica buscando abordar temas atuais com os quais professores de ciências estão envolvidos em seu cotidiano escolar.
sexta-feira, 29 de março de 2013
terça-feira, 19 de março de 2013
O professor e o tempo
O tempo é sempre curto. Não sei para os profissionais de outras áreas mas quem trabalha na Educação certamente compartilha dessa minha sensação.
Estamos sempre correndo, de uma sala de aula para outra, de uma pilha de provas para o computador, do planejamento das aulas para as queixas na sala dos professores... Enfim, o tempo já não parece ser suficiente simplesmente para "sermos". Sermos sujeitos que têm direito ao lazer, a estar com sua família e amigos, a um curso de atualização profissional, ao desfrute de um bom livro ou o simples direito ao ócio.
Somos cada vez menos nós mesmos. E, com isso, estamos perdendo nossas próprias identidades. Nossa identidade de professor, de educador, de alguém que quer participar na formação de outras identidades.
A jornada de trabalho a qual nós professores estamos submetidos (e aqui considero todos os níveis de ensino, inclusive o superior no qual atuo e vive uma cobrança cruel por produtividade) é a base para o desgaste de nossa profissão.
Tenho colegas que trabalham em três, quatro escolas diferentes, cada uma em uma região do estado do RJ. Há tempo para "ser"?
Esses mesmos professores estão submetidos a condições de trabalho absurdas. Como esperar que esses professores deem aulas de qualidade (sendo eles perfeitamente capacitados para tanto) em salas cuja temperatura ultrapassa os 40 oC?
Nunca fui professora que engrossa o coro dos "acomodados" que apenas fazem reclamar do magistério (da direção da escola, do governo, dos alunos, dos pais dos alunos...) pois prefiro dar minha resposta agindo. Porém, eu compreendo perfeitamente o cansaço que acomete aquele professor que leva seu trabalho a sério, que não fica satisfeito quando oferece seu mínimo, e que respeita seu aluno sempre. Quando esse cansaço bate, junto com ele vem o desânimo, a desesperança, a dúvida. Momentos como este qualquer professor já viveu. Eu já tive alguns. Mas passaram. Logo era recompensada com o carinho de uma turma, o desenvolvimento de um aluno, o resultado de um trabalho.
Porém, o tempo perdido foi perdido. Não volta.
E sigo me perguntando: quando nos permitiremos termos tempo para sermos aquilo que queremos?
Estamos sempre correndo, de uma sala de aula para outra, de uma pilha de provas para o computador, do planejamento das aulas para as queixas na sala dos professores... Enfim, o tempo já não parece ser suficiente simplesmente para "sermos". Sermos sujeitos que têm direito ao lazer, a estar com sua família e amigos, a um curso de atualização profissional, ao desfrute de um bom livro ou o simples direito ao ócio.
Somos cada vez menos nós mesmos. E, com isso, estamos perdendo nossas próprias identidades. Nossa identidade de professor, de educador, de alguém que quer participar na formação de outras identidades.
A jornada de trabalho a qual nós professores estamos submetidos (e aqui considero todos os níveis de ensino, inclusive o superior no qual atuo e vive uma cobrança cruel por produtividade) é a base para o desgaste de nossa profissão.
Tenho colegas que trabalham em três, quatro escolas diferentes, cada uma em uma região do estado do RJ. Há tempo para "ser"?
Esses mesmos professores estão submetidos a condições de trabalho absurdas. Como esperar que esses professores deem aulas de qualidade (sendo eles perfeitamente capacitados para tanto) em salas cuja temperatura ultrapassa os 40 oC?
Nunca fui professora que engrossa o coro dos "acomodados" que apenas fazem reclamar do magistério (da direção da escola, do governo, dos alunos, dos pais dos alunos...) pois prefiro dar minha resposta agindo. Porém, eu compreendo perfeitamente o cansaço que acomete aquele professor que leva seu trabalho a sério, que não fica satisfeito quando oferece seu mínimo, e que respeita seu aluno sempre. Quando esse cansaço bate, junto com ele vem o desânimo, a desesperança, a dúvida. Momentos como este qualquer professor já viveu. Eu já tive alguns. Mas passaram. Logo era recompensada com o carinho de uma turma, o desenvolvimento de um aluno, o resultado de um trabalho.
Porém, o tempo perdido foi perdido. Não volta.
E sigo me perguntando: quando nos permitiremos termos tempo para sermos aquilo que queremos?
segunda-feira, 11 de março de 2013
Saúde e sexualidade em livros didáticos: temos avançado?
No semestre passado tive a oportunidade de discutir questões relativas à Saúde e Sexualidade em duas turmas (uma da Biologia e outra da Pedagogia). Entre tantos aspectos que surgiram confesso que dois me chamaram a atenção e fizeram com que eu buscasse outras bibliografias: as relações entre saúde e ambiente e saúde e sexualidade ambas apresentadas (em diferentes níveis de profundidade) em livros didáticos.
O primeiro deles parece ser mais contemplado tanto nas pesquisas da área de Educação em Ciências quanto nas aulas de ciências. Bom, parece. Existe sim já uma vertente de pesquisa que vem se consolidando a partir da promoção do diálogo entre os mais diversos conceitos de Saúde e a questão ambiental tão cara em nossa sociedade contemporânea. Aqui, a perspectiva CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) tem ajudado alguns teóricos a pensarem as relações interdependentes entre essas três esferas adicionando, de forma cada vez mais representativa, a dimensão ambiental que se encontra implicada quando pensamos os impactos científico-tecnológicos - em nosso caso particular, de uma sociedade de consumo - sobre o ambiente. Por outro lado, ao analisar capítulos de livros didáticos de ciências do primeiro e segundo segmentos do ensino fundamental com os licenciandos (apoiados em artigos de pesquisadores da área) observamos que a Saúde continua sendo abordada com aquele enfoque higienista e prescritivo. A discussão envolvendo saúde e ambiente (tangenciando problemas sociais e econômicos) passa ao largo nos livros didáticos. Em certo sentido, nossas conclusões corroboram o que estes autores apontam em suas pesquisas mas ainda nos chocam na medida que os livros estão em discordância tanto com os Parâmetros Curriculares Nacionais quanto com o que os educadores em saúde têm sugerido fortemente nas últimas décadas.
O mesmo ocorreu quando nos deparamos com os conteúdos relacionados à Sexualidade Humana nos livros de 6° ao 9° ano. Vínhamos de discussões que contemplaram diferentes aspectos da sexualidade que extrapolam os biológicos e contemplam o psicológico, o moral, o social e o cultural. Ao voltarmos nosso olhar para os livros novamente encontramos um enfoque biologicista com detalhamento de funções dos órgãos reprodutores e um "doutrinamento" de posturas que sugerem o uso de preservativos e métodos anticoncepcionais que mais parecem convencer pela imposição da cultura do medo. Com isso, outros tantos assuntos deixam de ser contemplados como, por exemplo, o aborto e a homossexualidade. Nesse sentido, dois momentos na disciplina da Biologia foram relevantes: duas aulas em que os temas relacionados à Sexualidade foram debatidos de forma aberta e franca e outra em que discutimos um artigo (veja aqui) no qual autoras de coleções didáticas expõem o processo de autoria de livros, mais especificamente da temática Sexualidade.
Não há como ignorar a importância do livro didático nas aulas de ciências, tanto para o "bem" quanto para o "mal". Eles não são os grandes vilões da educação (em ciências) e (jamais) serão a sua salvação. Mas é sempre válido exercitar um olhar crítico sobre este instrumento ao qual professores e alunos têm livre acesso nas escolas públicas. Não se trata de "culpabilizar" os autores de livros didáticos. É preciso (re)conhecer o processo de editoração, venda e aquisição de livros didáticos como um mercado e, indo mais além, realizar uma leitura crítica deste processo e dos textos e discursos veiculados nos livros.
Ainda não consigo detectar grandes avanços no sentido de um ensino de temas relacionados à Saúde e Sexualidade que promova uma educação científica humanística e progressista quando observo os livros didáticos. Porém, sempre gosto de pensar (e acredito, de fato) que conteúdos e metodologias são sempre definidas, em última instância, pelo professor. Mesmo quando este tem que lutar contra os currículos cada vez mais mínimos e políticas de avaliação (cuja lógica não é educacional) das secretarias estaduais e municipais pelo Brasil afora.
sábado, 2 de março de 2013
Por que ensinar ciências mesmo?
Em post anterior comentei sobre a(s) função(ões) da escola em nossa sociedade e a percepção da mesma pelos estudantes. Acredito que, da mesma forma que existem várias correntes na Sociologia da Educação que propõem diferentes funções e papeis da instituição escolar, na Educação em Ciências observamos movimentos distintos ao longo de sua constituição e desenvolvimento os quais buscam/buscaram justificar a inserção de conhecimentos
científicos nos currículos da escola básica.
Traçamos um caminho que foi desde uma argumentação puramente
tecnicista ou conteudista, passando pela necessidade de estimular os alunos a
seguirem carreiras científicas até uma justificativa que envolve a necessidade
de que nossos alunos consigam compreender conceitos científicos e, ao mesmo
tempo, deem conta de colocá-los em prática a partir de tomadas de decisões
sobre assuntos que envolvem a Ciência e a Tecnologia[1].
Atualmente, eu penso que essas três finalidades não se excluem e são válidas
desde que nenhuma delas seja compreendida de modo raso e estrito.
O
aluno tem que sair da escola, depois de passar anos tendo aulas de ciências
naturais, sabendo conteúdos básicos de Biologia, Geociências, Física e Química.
Além disso, ele tem que não apenas conhecer os conceitos mas entender sua
origem, ou seja, compreender aspectos da
Natureza da Ciência (como o conhecimento científico é produzido, por quem, quais
os interesses envolvidos nessa produção, os impactos de tais conhecimentos na
sociedade e por aí vai). Mais recentemente a ideia de alfabetização científica (ou
letramento científico, como alguns preferem) trouxe à tona a importância de que
o ensino de ciências contemple as relações entre Ciência, Tecnologia e
Sociedade e que ele contribua para a formação de pessoas que saibam opinar
sobre temas científicos e tecnológicos presentes em seu cotidiano.
Além disso, outros autores
argumentam que ensinar ciências sem discutir o que é Ciência, o(s) método(s)
científico(s), a atividade científica produtora de conhecimentos passa a ser
uma tarefa inócua. E vou além: são pouquíssimos cursos de graduação que possuem
disciplinas que proporcionem discussões epistemológicas e sobre a história da
ciência. Assim, não apenas os futuros cientistas como os professores de
ciências saem da universidade sem refletir sobre aspectos intrínsecos e extrínsecos
à Ciência e perdem a oportunidade de problematizar esta atividade social humana
e deixam de ter sua curiosidade epistemológica despertada.
Considerando todos esses
fatores – que não se esgotam aqui – parece que ensinar ciências não é algo simples.
Porém, quando nós professores de ciências (qualquer que seja o nível de ensino)
temos claro quais são os nossos objetivos e o que pretendemos quando falamos
sobre a Ciência as escolhas relativas aos conteúdos a serem ensinados e aos
métodos a serem utilizados são, sem dúvidas, facilitadas.
[1] Para
estudo dos objetivos do ensino de ciências (de acordo com perspectivas históricas
e críticas), recomendo:
Delizoicov, Demétrio; Angotti, José André; Pernambuco,
Marta Maria. Ensino de Ciências:
fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2002.
Krasilchik, Myriam. O professor e o currículo das ciências. São Paulo: EPU, 1987.
Marandino, Martha; Selles, Sandra E.; Ferreira, Marcia
S. Ensino de biologia: histórias e
práticas em diferentes espaços educativos. São Paulo: Cortez, 2009.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Um (doce) balanço
Mais um semestre se encerra na universidade (lembrando que tivemos greve e, por isso, estamos terminando a reposição de aulas) e com ele algumas reflexões acabam surgindo. Mas eu não quero dissertar sobre as aulas bem sucedidas ou inovações que deram mais ou menos certo nas disciplinas que ministrei. Eu quero escrever sobre gente. Porque, no fundo, o que é bonito no magistério é o lidar com gente, com pessoas, com sujeitos e suas histórias.
Este semestre conheci muitas pessoas e histórias encantadoras. A de uma adolescente que acabou de ter filho e acaba de ingressar na universidade, a de uma mulher - quase senhora - que trabalha em uma escola de educação especial e que agora faz pedagogia, a de um homem que não cursou todo o ensino fundamental - quiçá o médio - mas fez provas para obter os diplomas, prestou vestibular e agora no final do ano se graduará, e várias outras histórias encantadoras.
A cada tarde ou noite em que convivi com esses alunos eu não ensinei apenas. Aprendi demais com todos eles. E quando Paulo Freire dizia que não há docência sem discência - a essência da pedagogia dialógica - ele não poderia estar mais correto. Não há como ensinar sem aprender. E esse aprender se refere não apenas a conteúdos, aliás, conteúdo é o que há de menos importante aqui. Gosto de ouvir o que eles têm a dizer sobre seu mundo, suas angústias, suas ideias... Enfim, a possibilidade de troca, de conhecer outras realidades via o olhar do outro me encanta no magistério.
Aprendi muito com meus licenciandos da Biologia e da Pedagogia este semestre. E, apesar do cansaço que todo professor conhece muito bem ao final de um ciclo de trabalho, sinto-me recompensada e revigorada para seguir em frente.
Feliz 2013!
Este semestre conheci muitas pessoas e histórias encantadoras. A de uma adolescente que acabou de ter filho e acaba de ingressar na universidade, a de uma mulher - quase senhora - que trabalha em uma escola de educação especial e que agora faz pedagogia, a de um homem que não cursou todo o ensino fundamental - quiçá o médio - mas fez provas para obter os diplomas, prestou vestibular e agora no final do ano se graduará, e várias outras histórias encantadoras.
A cada tarde ou noite em que convivi com esses alunos eu não ensinei apenas. Aprendi demais com todos eles. E quando Paulo Freire dizia que não há docência sem discência - a essência da pedagogia dialógica - ele não poderia estar mais correto. Não há como ensinar sem aprender. E esse aprender se refere não apenas a conteúdos, aliás, conteúdo é o que há de menos importante aqui. Gosto de ouvir o que eles têm a dizer sobre seu mundo, suas angústias, suas ideias... Enfim, a possibilidade de troca, de conhecer outras realidades via o olhar do outro me encanta no magistério.
Aprendi muito com meus licenciandos da Biologia e da Pedagogia este semestre. E, apesar do cansaço que todo professor conhece muito bem ao final de um ciclo de trabalho, sinto-me recompensada e revigorada para seguir em frente.
Feliz 2013!
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Por que ensinar e aprender na escola? Por que ensinar Ciências?
A primeira das questões acima me
acompanha desde sempre. A última vez em que ela surgiu foi de uma maneira
bastante inusitada. Minha filha, então com 8 anos, às 7 horas da manhã enquanto se
vestia para ir à escola me sai com essa: “Mãe, por que as crianças têm que ir
para a escola?”. Como eu ainda estava meio sonolenta e tendo sido pega de
surpresa com essa pergunta que é praticamente filosófica eu respondi: “dá pra
gente conversar sobre isso depois?”. Ela foi para a aula e eu fiquei o restante
da manhã pensando naquilo. Como responder essa pergunta de modo que uma criança
entendesse e fosse convencida? E o pior não era isso. Era eu me dar conta que
talvez eu mesma não tivesse uma resposta razoável para dar.
Na
saída da escola eu retomei o assunto e disse alguma coisa do tipo: é importante
que as crianças aprendam tudo o que as gerações passadas (nossos avós, bisavós
e outras pessoas há muitos anos atrás) aprenderam sobre o mundo, sobre a
natureza porque senão esse conhecimento irá se perder. Para ser sincera, eu não
fiquei convencida com a resposta que dei e ela fez uma expressão de que “não
era isso o que eu estava querendo saber”.
O papo ficou por aí mas a
minha inquietação enquanto educadora persistiu. Deve ter alguma coisa errada na
escola para que as crianças se façam esse tipo de pergunta (ou não...). Enfim,
eu conclui que talvez seja importante conversar com as crianças sobre a
importância de frequentar a escola (mas há mesmo uma importância?). Porque,
caso contrário, parece uma obrigação não justificada ter que ir à escola e,
convenhamos, criança não gosta de fazer nada por obrigação. Acho legítimo um
aluno me questionar o motivo dele ter que aprender na escola e não em casa, no
computador. Será que esse é um dos motivos pelos quais eles não reconhecem a
relevância e a finalidade do papel do professor? Será que esse não pode ser
mais um fator que repercute no pouco respeito e desvalorização da profissão
docente? Pode parecer meio óbvio para nós, professores, e para uma parcela da
população adulta que nossa profissão é essencial para o desenvolvimento e
melhoria da sociedade. Mas não é. E também é nossa função, ao contribuir para a
formação de valores e do caráter do aluno, discutir com ele a importância da
escola na vida dele. Eu não estou sugerindo inserir uma disciplina de filosofia
nas séries iniciais. No entanto, eu realmente acredito que formar “cidadãos
críticos capazes de exercitar plenamente sua cidadania nos diferentes contextos
e situações na sociedade” (não é este o discurso dos documentos curriculares
oficiais?) passa, obrigatoriamente, por discussões como essa. Afinal, como
exercitar a criticidade dos alunos se não deixamos que eles tenham voz no
espaço que é pensado atualmente como sendo o espaço formal responsável pela sua
formação integral e plena?
E sobre o ensino de ciências, especificamente? Comento no próximo post...
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
É possível formar professores de ciências a distância?
Sei que o assunto é polêmico e logo adianto que não pretendo sair em defesa de qualquer posição, apresentar dados estatísticos ou dizer que este ou aquele autor é a favor ou contra a educação a distância. Darei tão somente um depoimento de alguém que tanto fez um curso de especialização nesta modalidade quanto como uma professora universitária que ministrou aulas em um curso de formação inicial de professores da Universidade Aberta do Brasil (UAB).
Ao finalizar minha graduação não me sentia pronta para uma seleção de mestrado. Optei por seguir no magistério, ganhar experiência em sala de aula e somente depois decidir se e em qual área eu faria meu mestrado. Foi uma ótima decisão porque na escola eu percebi o que me motivaria ao redigir um projeto de pesquisa, escolhendo meu objeto de estudo e a linha de investigação a ser seguida. Mas uma parte deste êxito deveu-se ao fato de eu ter cursado nesse ínterim uma especialização (lato sensu) em Docência do Ensino Superior, coordenada por uma equipe de professores da UFRJ. O curso era organizado em módulos e eu recebia o material (impresso) via correios e tinha orientações sobre o tempo a dedicar ao estudo de cada conteúdo e uma carga horária diária de estudo era sugerida pelos coordenadores. Eu seguia à risca as instruções. Ao final de cada módulo havia uma avaliação. Em alguns eram trabalhos escritos que deveriam ser postados pelos correios e em outros eram provas escritas que eu fazia em um "polo". Ao final da especialização eu deveria submeter (não havia defesa oral) uma monografia sobre um dos temas abordados em quaisquer dos módulos do curso. Lembro-me que tive uma dificuldade considerável para elaborar a monografia, sobretudo no que diz respeito à revisão bibliográfica e a construção de um texto científico coerente cuja apropriação teórica de fato existisse e não ficasse apenas no nível da repetição (os famosos "apud"). Devo admitir que esta foi a etapa em que mais senti falta do "presencial", da "sala de aula", de poder tirar dúvidas "ao vivo" com o professor no momento em que elas surgiam. Eu raramente utilizava o sistema de tutoria. Talvez se fosse hoje - com o uso das plataformas via Internet - eu tivesse interagido mais com os tutores. Minha moral da história aqui é que a especialização a distância foi uma experiência que somou à minha formação acadêmica e que eu a encarei com muita seriedade pois exercitei minha autonomia e disciplina.
Agora o outro lado da moeda.
Minha primeira atuação como professora efetiva em uma universidade foi exatamente em um curso de educação a distância. A vaga para a qual fui destinada era da UAB para ministrar disciplinas pedagógicas no curso de licenciatura em Física da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI). Antes de contar um pouco dessa experiência permitam-me dar uma contextualizada. Primeiro, eu tinha um pé atrás com relação a essa coisa toda de formar professores (e de ciências!) a distância. As questões eram várias mas as principais eram: e as discussões/interações interpessoais que apenas são possíveis quando os sujeitos estão fisicamente presentes em um mesmo espaço? E o olho no olho? Segundo, quando eu comecei a me preparar para o concurso (e eu estudei e li bastante a respeito do assunto, afinal, a vaga era na área de Educação e não Ensino de Ciências) eu me deparei com argumentos favoráveis e contrários à formação de professores (de ciências) a distância que eram bastante razoáveis. E aí, obviamente, eu me perguntei em algum momento: "você quer fazer parte disso? Quer lidar com pessoas, via computador, sem olhar para elas, e formá-las para serem professoras que estarão em sala de aula um dia? Você acredita nisso?". Fiz o concurso sem ter uma resposta a esta última questão, mas eu decidi que eu queria apostar na experiência.
Nem preciso dizer que enfrentei desafios óbvios: o curso era de licenciatura em Física (minha formação inicial é em Ciências Biológicas), não daria qualquer disciplina relacionada à minha área, não dominava a plataforma TelEduc (na qual eu ministraria as disciplinas) e ficaria responsável por disciplinas pedagógicas (Didática, Psicologia da Educação, Estrutura e Funcionamento) que me demandariam muito estudo para sua preparação e adaptação para o formato a distância.
Logo que entrei na universidade e me envolvi com a licenciatura a distância - no outro semestre passei a atuar também no curso presencial - aquelas questões pareciam ter sumido. Eu já não me questionava se eu queria ou não fazer parte do grupo de professores universitários que apoiam a formação de professores a distância. E hoje, quando eu paro para pensar em um possível motivo, eu arriscaria um: a seriedade com a qual aquela equipe de professores do curso de licenciatura em Física a distância da UNIFEI conduzia todas as atividades pedagógicas/acadêmicas daquele curso era exemplar. Antes que alguém insinue que isso poderia se dever à bolsa da UAB que recebíamos mensalmente por atuarmos neste curso eu adianto: não, não era. Aqueles professores realmente estavam preocupados com um dado concreto: professores de física são uma espécie em extinção! Tudo bem, então vamos melhorar o ensino de física no nível médio, lá na escola, estimular a escolha pelo curso de Física quando a molecada está escolhendo a carreira no vestibular. Concordo plenamente. Mas estamos esquecendo de um dado fundamental: há quem escolha Física e abandone o curso logo no início. Enquanto fui professora lá vi uma turma presencial se formar com a mesma quantidade (ínfima) de alunos da turma a distância. Se não fosse esse curso a distância (que, me desculpem os críticos que não conhecem o trabalho daquela equipe, era sim de qualidade) o número estaria reduzido à metade!
Só mais um ponto. Havia uma frase que não saia da minha cabeça durante todo o período pré-concurso e ainda quando atuava lá como professora: "Por que não há curso de medicina a distância?". Tão logo pensava nesta questão imaginava os estágios supervisionados nas licenciaturas. Como controlar? Como contribuir para que os futuros professores percebessem a prática pedagógica como uma atividade crítica? Como "pensar" em conjunto com os licenciandos suas regências, assisti-las e buscar avaliá-las de modo que esta etapa essencial na formação docente fosse de qualidade. Não fui professora de Estágio Supervisionado no curso a distância mas observava o trabalho de alguns colegas. Ainda considero que aqui jaz o maior desafio das licenciaturas a distância.
Para concluir - não o assunto que está longe de ser unívoco - mas as minhas considerações posso trazer um comentário que sempre escutava nas reuniões daquela equipe: bom aluno, é bom aluno em qualquer modalidade de ensino. Aqui deixo minha ressalva: ser "bom aluno" ainda é um julgamento subjetivo e nada me gratifica mais quando vejo um "aluno regular" se transformar em um "excelente futuro professor".
Obs: o verbo "ver" na frase acima não foi empregado aleatoriamente.
Ao finalizar minha graduação não me sentia pronta para uma seleção de mestrado. Optei por seguir no magistério, ganhar experiência em sala de aula e somente depois decidir se e em qual área eu faria meu mestrado. Foi uma ótima decisão porque na escola eu percebi o que me motivaria ao redigir um projeto de pesquisa, escolhendo meu objeto de estudo e a linha de investigação a ser seguida. Mas uma parte deste êxito deveu-se ao fato de eu ter cursado nesse ínterim uma especialização (lato sensu) em Docência do Ensino Superior, coordenada por uma equipe de professores da UFRJ. O curso era organizado em módulos e eu recebia o material (impresso) via correios e tinha orientações sobre o tempo a dedicar ao estudo de cada conteúdo e uma carga horária diária de estudo era sugerida pelos coordenadores. Eu seguia à risca as instruções. Ao final de cada módulo havia uma avaliação. Em alguns eram trabalhos escritos que deveriam ser postados pelos correios e em outros eram provas escritas que eu fazia em um "polo". Ao final da especialização eu deveria submeter (não havia defesa oral) uma monografia sobre um dos temas abordados em quaisquer dos módulos do curso. Lembro-me que tive uma dificuldade considerável para elaborar a monografia, sobretudo no que diz respeito à revisão bibliográfica e a construção de um texto científico coerente cuja apropriação teórica de fato existisse e não ficasse apenas no nível da repetição (os famosos "apud"). Devo admitir que esta foi a etapa em que mais senti falta do "presencial", da "sala de aula", de poder tirar dúvidas "ao vivo" com o professor no momento em que elas surgiam. Eu raramente utilizava o sistema de tutoria. Talvez se fosse hoje - com o uso das plataformas via Internet - eu tivesse interagido mais com os tutores. Minha moral da história aqui é que a especialização a distância foi uma experiência que somou à minha formação acadêmica e que eu a encarei com muita seriedade pois exercitei minha autonomia e disciplina.
Agora o outro lado da moeda.
Minha primeira atuação como professora efetiva em uma universidade foi exatamente em um curso de educação a distância. A vaga para a qual fui destinada era da UAB para ministrar disciplinas pedagógicas no curso de licenciatura em Física da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI). Antes de contar um pouco dessa experiência permitam-me dar uma contextualizada. Primeiro, eu tinha um pé atrás com relação a essa coisa toda de formar professores (e de ciências!) a distância. As questões eram várias mas as principais eram: e as discussões/interações interpessoais que apenas são possíveis quando os sujeitos estão fisicamente presentes em um mesmo espaço? E o olho no olho? Segundo, quando eu comecei a me preparar para o concurso (e eu estudei e li bastante a respeito do assunto, afinal, a vaga era na área de Educação e não Ensino de Ciências) eu me deparei com argumentos favoráveis e contrários à formação de professores (de ciências) a distância que eram bastante razoáveis. E aí, obviamente, eu me perguntei em algum momento: "você quer fazer parte disso? Quer lidar com pessoas, via computador, sem olhar para elas, e formá-las para serem professoras que estarão em sala de aula um dia? Você acredita nisso?". Fiz o concurso sem ter uma resposta a esta última questão, mas eu decidi que eu queria apostar na experiência.
Nem preciso dizer que enfrentei desafios óbvios: o curso era de licenciatura em Física (minha formação inicial é em Ciências Biológicas), não daria qualquer disciplina relacionada à minha área, não dominava a plataforma TelEduc (na qual eu ministraria as disciplinas) e ficaria responsável por disciplinas pedagógicas (Didática, Psicologia da Educação, Estrutura e Funcionamento) que me demandariam muito estudo para sua preparação e adaptação para o formato a distância.
Logo que entrei na universidade e me envolvi com a licenciatura a distância - no outro semestre passei a atuar também no curso presencial - aquelas questões pareciam ter sumido. Eu já não me questionava se eu queria ou não fazer parte do grupo de professores universitários que apoiam a formação de professores a distância. E hoje, quando eu paro para pensar em um possível motivo, eu arriscaria um: a seriedade com a qual aquela equipe de professores do curso de licenciatura em Física a distância da UNIFEI conduzia todas as atividades pedagógicas/acadêmicas daquele curso era exemplar. Antes que alguém insinue que isso poderia se dever à bolsa da UAB que recebíamos mensalmente por atuarmos neste curso eu adianto: não, não era. Aqueles professores realmente estavam preocupados com um dado concreto: professores de física são uma espécie em extinção! Tudo bem, então vamos melhorar o ensino de física no nível médio, lá na escola, estimular a escolha pelo curso de Física quando a molecada está escolhendo a carreira no vestibular. Concordo plenamente. Mas estamos esquecendo de um dado fundamental: há quem escolha Física e abandone o curso logo no início. Enquanto fui professora lá vi uma turma presencial se formar com a mesma quantidade (ínfima) de alunos da turma a distância. Se não fosse esse curso a distância (que, me desculpem os críticos que não conhecem o trabalho daquela equipe, era sim de qualidade) o número estaria reduzido à metade!
Só mais um ponto. Havia uma frase que não saia da minha cabeça durante todo o período pré-concurso e ainda quando atuava lá como professora: "Por que não há curso de medicina a distância?". Tão logo pensava nesta questão imaginava os estágios supervisionados nas licenciaturas. Como controlar? Como contribuir para que os futuros professores percebessem a prática pedagógica como uma atividade crítica? Como "pensar" em conjunto com os licenciandos suas regências, assisti-las e buscar avaliá-las de modo que esta etapa essencial na formação docente fosse de qualidade. Não fui professora de Estágio Supervisionado no curso a distância mas observava o trabalho de alguns colegas. Ainda considero que aqui jaz o maior desafio das licenciaturas a distância.
Para concluir - não o assunto que está longe de ser unívoco - mas as minhas considerações posso trazer um comentário que sempre escutava nas reuniões daquela equipe: bom aluno, é bom aluno em qualquer modalidade de ensino. Aqui deixo minha ressalva: ser "bom aluno" ainda é um julgamento subjetivo e nada me gratifica mais quando vejo um "aluno regular" se transformar em um "excelente futuro professor".
Obs: o verbo "ver" na frase acima não foi empregado aleatoriamente.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Pesquisador/orientador também é professor?
Talvez neste post eu fuja um pouco do foco deste blog, o ensino de ciências na escola. Talvez não.
Outro dia estava conversando informalmente com um grupo de amigos com os quais cursei minha graduação. Hoje, todos somos pós-graduados e atuantes em diferentes áreas de conhecimento. O tema da conversa era a competitividade do mundo acadêmico. Todos ali tinham sido estagiários, mestrandos ou doutorandos de um grande departamento de pesquisas no Centro de Ciências da Saúde na UFRJ. O que tínhamos em comum? Boas (ou péssimas?) histórias sobre nossos ex-orientadores.
Na verdade, quando nos encontramos neste nível, o de estudantes/aprendizes, ainda não compreendemos bem o jogo de poder entre os chefes de laboratório na disputa por espaços, recursos, status. Uma amiga relatou o caso de uma professora/pesquisadora já aposentada que simplesmente obrigou uma pesquisadora contratada em seu laboratório a "adicionar" seu nome em uma publicação na qual ela simplesmente não teve qualquer tipo de participação. Com isso, os currículos Lattes desses "pesquisadores de alto nível" vão engordando e dando a tortuosa impressão de que eles são, de fato, referências na área. Será que é por mera vaidade que esse tipo de pesquisador faz isso? Em alguns casos, pode ser que sim. Mas acredito que na grande maioria o que ocorre é a ganância, é a necessidade de construção de um "sobrenome" (no meio acadêmico somos conhecidos assim) que seja certificado de confiabilidade e, portanto, de injeção de verbas para o desenvolvimento de projetos de pesquisa, aquisição de materiais, bolsas de produtividade e por aí vai.
Conheço, pessoalmente, variados perfis de pesquisadores. Desde aqueles que deixam seus orientandos soltos, completamente perdidos, e que depois querem colher os louros de seus resultados ou simplesmente se eximir de qualquer tipo de responsabilidade por um trabalho de pouca qualidade... Até... Pesquisadores que são extremamente compromissados com a formação de seus alunos (de iniciação científica, de mestrado ou de doutorado) e que ajudam-nos a crescer, a se tornarem pesquisadores tão bons ou melhores do que eles. Falamos sobre isso em nossa conversa, existem orientadores que querem te fazer crescer, que se orgulham em ter feito parte de sua formação e não se sentem diminuídos pelo simples fato de que agora você está conquistando seu espaço e sendo reconhecido. Mas existem aqueles outros que te sugam, te puxam para baixo, e quando percebem que você tem seu brilho próprio, te podam.
Acredito que estes últimos não têm a percepção de seu papel formativo não apenas na vida acadêmica daquela pessoa, mas também na constituição nos valores éticos daquele sujeito. Todo pesquisador/orientador é professor e, por isso, tem que ser exemplo de boas condutas e demonstrar atitudes de bom caráter e profissionalismo. Ter uma boa formação é essencial. Mas nem tudo está perdido se tivermos alguns maus exemplos pelo caminho, não é mesmo?
sábado, 2 de fevereiro de 2013
"Pesquisa em Ensino de Ciências como 'Ciências Moles'?"
Os alunos que ingressam no curso de licenciatura (e até mesmo no bacharelado) em Biologia desconhecem a existência da pesquisa em educação em ciências. Outro dia, em uma aula da turma de calouros fizemos a discussão de um artigo de pesquisa da área e perguntei: "qual a área de conhecimento a qual está pesquisa está relacionada?". Resposta (ainda que tímida): Biologia. Retribui com outra pergunta: "qual a área de conhecimento de vocês neste curso?". Obtive a mesma resposta. Tive que ser enfática. "Não, a área de vocês não é Biologia! É Educação em Ciências ou Ensino de Biologia, se preferirem."
Tenho certeza de que se algum colega meu de faculdade, que não seja da área de "Ensino", estiver lendo este post agora está com um canto da boca meio torto e um olhar de poucos amigos. Já volto nisso.
Antes deixe-me contar o desfecho da conversa com os calouros. Eles me olharam espantados e eu fui obrigada (com todo o prazer) a explicar que produzimos conhecimentos científicos nas Ciências Humanas (ou Ciências Humanas Aplicadas, algo meu querido ex-professor Demétrio Delizoicov muito bem discute em um artigo no Caderno Brasileiro em Ensino de Física) e que, como qualquer Ciência, utilizamos referenciais teóricos, rigorosa metodologia e critérios de demarcação. Eles cursam uma outra disciplina na qual discutem questões de cunho epistemológico, o que é fundamental para qualquer curso de licenciatura, e neste momento trouxeram à tona algumas questões importantes, entre elas a ideia do "ateorismo" quando na realização de uma pesquisa que tem como "dado" a observação.
A desvalorização da pesquisa nas Humanidades é tão evidente na universidade que alunos de uma Faculdade de Formação de Professores acham que estão ali "apenas" para aprenderem a como dar aulas. Mas de onde eles tiraram essa ideia se eles acabaram de entrar na universidade?
Acredito que isso tem relação com algumas coisas que comentei em outros posts: a própria desvalorização do magistério como atividade que não requer estudo mas tão somente "vocação" e a ideia de que "quem sabe pesquisa e quem não sabe, ensina".
Retomando as possíveis críticas de alguns colegas. Eu sempre ouvi (desde que fui professora no Departamento de Física e Química da UNIFEI) que o "pessoal do ensino consegue publicar mais porque é mais fácil". Um colega (muito querido, por sinal) brinca comigo que eu e outros professores que damos as disciplinas pedagógicas somos das "ciências moles"; afinal quem faz "pesquisa" é das ciências duras ("hard").
Se os próprios professores/pesquisadores das áreas das Ciências Biológicas (os das Ciências Exatas então...) não nos reconhecem como tal, o que esperar desses alunos recém-chegados nas licenciaturas?
Antes que digam que eu estou propondo uma queda de braço entre pesquisadores de diferentes áreas quero esclarecer que eu mesma sou bacharel e tenho amigos pesquisadores de outras áreas (que não a de Humanas) que são inclusive parceiros em projetos de pesquisa e extensão. A questão aqui não é ver quem "produz mais" ou conhecimento de "melhor qualidade" do que o outro. Os conhecimentos têm origens e racionalidades distintas e a produção dos conhecimentos em cada área segue determinados padrões e lógicas epistemológicas que não podem ser comparadas.
Eu não tenho a menor intenção em convencer meus alunos da licenciatura de que a pesquisa em educação em ciências é "fabulosa". Eu quero (e acho que é meu dever) mostrar que a pesquisa em educação em ciências existe! E mais, eu quero que os licenciandos, futuros professores, sejam produtores de conhecimentos e se reconheçam como tais. É óbvio que nem todos farão mestrado e se tornarão acadêmicos mas precisamos fazer os olhos desses meninos brilharem ao se encantar com a pesquisa nas Ciências Humanas.
E sei que, assim como eu fui formada, eu e vários outros formadores de professores estão engajados neste propósito. Não é por acaso que nossa área vem se consolidando em eventos nacionais, internacionais e em periódicos de alta qualidade com edição em nosso país.
Com isso, ou melhor, sem isso a qualidade do nosso magistério não deixará o nível patético no qual se encontra atualmente.
Tenho certeza de que se algum colega meu de faculdade, que não seja da área de "Ensino", estiver lendo este post agora está com um canto da boca meio torto e um olhar de poucos amigos. Já volto nisso.
Antes deixe-me contar o desfecho da conversa com os calouros. Eles me olharam espantados e eu fui obrigada (com todo o prazer) a explicar que produzimos conhecimentos científicos nas Ciências Humanas (ou Ciências Humanas Aplicadas, algo meu querido ex-professor Demétrio Delizoicov muito bem discute em um artigo no Caderno Brasileiro em Ensino de Física) e que, como qualquer Ciência, utilizamos referenciais teóricos, rigorosa metodologia e critérios de demarcação. Eles cursam uma outra disciplina na qual discutem questões de cunho epistemológico, o que é fundamental para qualquer curso de licenciatura, e neste momento trouxeram à tona algumas questões importantes, entre elas a ideia do "ateorismo" quando na realização de uma pesquisa que tem como "dado" a observação.
A desvalorização da pesquisa nas Humanidades é tão evidente na universidade que alunos de uma Faculdade de Formação de Professores acham que estão ali "apenas" para aprenderem a como dar aulas. Mas de onde eles tiraram essa ideia se eles acabaram de entrar na universidade?
Acredito que isso tem relação com algumas coisas que comentei em outros posts: a própria desvalorização do magistério como atividade que não requer estudo mas tão somente "vocação" e a ideia de que "quem sabe pesquisa e quem não sabe, ensina".
Retomando as possíveis críticas de alguns colegas. Eu sempre ouvi (desde que fui professora no Departamento de Física e Química da UNIFEI) que o "pessoal do ensino consegue publicar mais porque é mais fácil". Um colega (muito querido, por sinal) brinca comigo que eu e outros professores que damos as disciplinas pedagógicas somos das "ciências moles"; afinal quem faz "pesquisa" é das ciências duras ("hard").
Se os próprios professores/pesquisadores das áreas das Ciências Biológicas (os das Ciências Exatas então...) não nos reconhecem como tal, o que esperar desses alunos recém-chegados nas licenciaturas?
Antes que digam que eu estou propondo uma queda de braço entre pesquisadores de diferentes áreas quero esclarecer que eu mesma sou bacharel e tenho amigos pesquisadores de outras áreas (que não a de Humanas) que são inclusive parceiros em projetos de pesquisa e extensão. A questão aqui não é ver quem "produz mais" ou conhecimento de "melhor qualidade" do que o outro. Os conhecimentos têm origens e racionalidades distintas e a produção dos conhecimentos em cada área segue determinados padrões e lógicas epistemológicas que não podem ser comparadas.
Eu não tenho a menor intenção em convencer meus alunos da licenciatura de que a pesquisa em educação em ciências é "fabulosa". Eu quero (e acho que é meu dever) mostrar que a pesquisa em educação em ciências existe! E mais, eu quero que os licenciandos, futuros professores, sejam produtores de conhecimentos e se reconheçam como tais. É óbvio que nem todos farão mestrado e se tornarão acadêmicos mas precisamos fazer os olhos desses meninos brilharem ao se encantar com a pesquisa nas Ciências Humanas.
E sei que, assim como eu fui formada, eu e vários outros formadores de professores estão engajados neste propósito. Não é por acaso que nossa área vem se consolidando em eventos nacionais, internacionais e em periódicos de alta qualidade com edição em nosso país.
Com isso, ou melhor, sem isso a qualidade do nosso magistério não deixará o nível patético no qual se encontra atualmente.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Uma decisão e um compromisso diários
O momento em que temos que tomar finalmente a decisão que responderá à clássica pergunta: "O que você quer ser quando crescer?" pode ser dramática para alguns. Muitas vezes nos deparamos frente ao dilema entre fazer algo que gostamos ou fazer algo para ganhar dinheiro. E quem opta pelo magistério acaba, mais cedo ou tarde, se questionando: "vale à pena mesmo eu fazer o que eu gosto e ser tão mau remunerado?".
Um dia, voltando da universidade de ônibus, já cursava a licenciatura, ouvi um calouro dizendo: "Eu vou fazer a licenciatura. Não custa nada garantir um emprego." Ele tinha a intenção na época - pelo que me pareceu na conversa - de cursar o bacharelado. A licenciatura seria sua segunda opção. Fiquei revoltada com a imagem que ele tinha do magistério. Mas com o tempo fui percebendo que esta é a visão que grande parcela da população brasileira tem: não deu certo em outra carreira, não conseguiu passar no vestibular de outro curso, vai ser professor. O salário é baixo mas é garantido.
Dentro da universidade, os cursos de licenciatura são sempre depreciados. Na Biologia mesmo eu sentia isso. Afinal, os "pesquisadores/bacharéis" são aqueles que são reconhecidos pela comunidade acadêmica. O "pessoal da educação/ensino" não têm status. Não é por acaso que o orçamento dos Centros das Humanidades recebem verbas mais "tímidas" quando comparadas com os Centros Tecnológicos e Biomédicos.
Os futuros professores são discriminados desde o momento da escolha de sua profissão, passando por todo o período em que estão na universidade se formando até quando, finalmente, chegam às escolas e exercem sua profissão. Somos desautorizados por instâncias superiores, feitos de meros executores de políticas públicas e, cada vez mais, questionados por pais que apoiam seus filhos sem nem mesmo querer saber se estes foram desrespeitosos conosco em nosso pleno exercício profissional.
Existem maus professores que contribuem para a péssima imagem (e resultados concretos) da educação brasileira? É claro que há. Porém, em toda e qualquer profissão existem pessoas descompromissadas e que não levam à sério seus deveres.
Por outro lado, tenho encontrado uma nova geração de professores que sente mesmo vontade de contribuir para a formação integral dos alunos. Em minha área específica de atuação percebo que há empenho em renovar os espaços da escola por meio da inserção de práticas de cunho experimental, de educação ambiental, de ações de promoção da saúde. Não podemos desprover a comunidade carente do conhecimento científico em nome de um assistencialismo que apenas contribui para a manutenção da sociedade da forma como ela é/está hoje. E existem professores com baixos salários e que trabalham sob péssimas condições que estão aí, nas escolas públicas, fazendo toda a diferença e que honram o magistério a cada dia.
No mais, posso apenas desejar que aquele calouro tenha desistido do magistério ou, caso esteja hoje em sala de aula, que tenha compreendido que ser professor não é ter uma profissão garantida (já que em qualquer cidade desse país há uma escola) mas, sim, assumir um compromisso diário com um outro ser humano na busca pela sua emancipação pessoal e coletiva.
Um dia, voltando da universidade de ônibus, já cursava a licenciatura, ouvi um calouro dizendo: "Eu vou fazer a licenciatura. Não custa nada garantir um emprego." Ele tinha a intenção na época - pelo que me pareceu na conversa - de cursar o bacharelado. A licenciatura seria sua segunda opção. Fiquei revoltada com a imagem que ele tinha do magistério. Mas com o tempo fui percebendo que esta é a visão que grande parcela da população brasileira tem: não deu certo em outra carreira, não conseguiu passar no vestibular de outro curso, vai ser professor. O salário é baixo mas é garantido.
Dentro da universidade, os cursos de licenciatura são sempre depreciados. Na Biologia mesmo eu sentia isso. Afinal, os "pesquisadores/bacharéis" são aqueles que são reconhecidos pela comunidade acadêmica. O "pessoal da educação/ensino" não têm status. Não é por acaso que o orçamento dos Centros das Humanidades recebem verbas mais "tímidas" quando comparadas com os Centros Tecnológicos e Biomédicos.
Os futuros professores são discriminados desde o momento da escolha de sua profissão, passando por todo o período em que estão na universidade se formando até quando, finalmente, chegam às escolas e exercem sua profissão. Somos desautorizados por instâncias superiores, feitos de meros executores de políticas públicas e, cada vez mais, questionados por pais que apoiam seus filhos sem nem mesmo querer saber se estes foram desrespeitosos conosco em nosso pleno exercício profissional.
Existem maus professores que contribuem para a péssima imagem (e resultados concretos) da educação brasileira? É claro que há. Porém, em toda e qualquer profissão existem pessoas descompromissadas e que não levam à sério seus deveres.
Por outro lado, tenho encontrado uma nova geração de professores que sente mesmo vontade de contribuir para a formação integral dos alunos. Em minha área específica de atuação percebo que há empenho em renovar os espaços da escola por meio da inserção de práticas de cunho experimental, de educação ambiental, de ações de promoção da saúde. Não podemos desprover a comunidade carente do conhecimento científico em nome de um assistencialismo que apenas contribui para a manutenção da sociedade da forma como ela é/está hoje. E existem professores com baixos salários e que trabalham sob péssimas condições que estão aí, nas escolas públicas, fazendo toda a diferença e que honram o magistério a cada dia.
No mais, posso apenas desejar que aquele calouro tenha desistido do magistério ou, caso esteja hoje em sala de aula, que tenha compreendido que ser professor não é ter uma profissão garantida (já que em qualquer cidade desse país há uma escola) mas, sim, assumir um compromisso diário com um outro ser humano na busca pela sua emancipação pessoal e coletiva.
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