Esta semana duas amigas escreveram algo muito parecido em suas páginas em uma rede social: o quanto aqueles que escrevem sobre educação parecem distantes da realidade da escola. Uma professora de inglês, outra professora de ciências. Cada uma em atuação em instituições distintas, públicas e privadas. Minhas amigas alertam para algo que, conforme já venho anunciando em posts anteriores, tem se colocado como uma inquietação e um desafio para a minha prática enquanto pesquisadora universitária.
Porém aqui tentarei "superar" - mesmo que momentaneamente - esta questão pessoal para refletir, de modo menos particular sobre esse tema.
Uma dessas colegas de profissão comentou sobre a impossibilidade de alguém que jamais esteve em uma sala de aula da educação básica tecer considerações apropriadas sobre esta realidade tão peculiar. Fiquei me perguntando se um aluno que sai da universidade, ingressa no mestrado, depois no doutorado, passa em um concurso público e se torna professor/pesquisador universitário de uma licenciatura poderia dimensionar o que é a escola pública brasileira. Acredito que existem algumas respostas cabíveis.
Primeira, ele poderia conhecer a escola pública no papel de aluno. No entanto, como ex-aluno ele nunca vivenciou o cotidiano do professor dessa escola; afinal, ele nunca assumiu este papel lá.
Segunda, ele poderia, durante sua formação inicial, ter estagiado em uma escola pública. Mas, aqui, novamente, ele não seria o professor regente das turmas. Ele poderia ter convivido com uma realidade mais próxima do magistério mas ainda assim não era ele o responsável por "cumprir o planejamento" e responder por todas as responsabilidades de um professor.
Terceira, suas pesquisas de mestrado e/ou doutorado podem ter investigado algum aspecto da escola pública no seu dia a dia. Ele pode ter realizado uma pesquisa empírica na qual seus dados foram coletados na escola. Desta forma, ele poderia ter tido contato - já com um olhar "mais acadêmico" - com esse universo escolar.
Quarta (mas que pode não necessariamente ser a última resposta cabível), ele poderia, ao se tornar professor/pesquisador universitário em um curso de licenciatura, orientar alunos em seus estágios nas escolas ou ainda desenvolver pesquisas sobre a escola.
Quando eu revejo todas essas possibilidades duas ideias me vêm à mente: não importa em que momento se deu o contato desse professor/pesquisador universitário com a realidade da escola pública, o que importa é: 1) que ele tenha se dado em algum momento, caso contrário ele jamais saberá do que se trata; 2) que ele possua uma concepção filosófica de educação muito bem fundamentada e, mais ainda, auto-consciente.
Eu percebo que existem pesquisadores, autores renomados de livros na área da Educação (e da Educação em Ciências) que estão muito distantes da realidade (dura, triste, sofrida, cruel) enfrentada pelos professores brasileiros. Mas não existiria então, espaço para a pesquisa teórica, de base? Claro que sim! Porém, ela não pode simplesmente ignorar o que se passa nas escolas públicas deste país. Por outro lado, também encontro pesquisadores que nunca foram professores de escolas públicas e que "perdem o sono" e "quebram suas cabeças" em busca de medidas (práticas) para a melhoria do ensino da escola básica.
Acho que não podemos generalizar, dizendo que os pesquisadores universitários estão viajando em suas teorias e esquecendo da realidade escolar. Tem gente buscando saídas sim, mesmo no âmbito de pesquisas que, para quem está de fora, pareça "descontextualizada" ou "irreal". Mas também tenho que concordar com minhas amigas que tem muito acadêmico por aí falando mais bonito do que, de fato, fazendo alguma coisa útil em prol da educação brasileira.
Ensinando Ciências na Escola é um blog que traz reflexões sobre a educação científica buscando abordar temas atuais com os quais professores de ciências estão envolvidos em seu cotidiano escolar.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
terça-feira, 28 de maio de 2013
Literatura e leitura em aulas de ciências: alguns exemplares
Devo confessar que o tema leitura me fascina. E o mais interessante nisso tudo é que eu me considero uma pessoa "preguiçosa" para ler, que lê muito menos do que deveria. Acredito que meus colegas professores compartilham em parte dessa sensação uma vez que somos interpelados todo o tempo pelas mais diversas cobranças inerentes à nossa profissão.
Acredito que todos somos professores de leitura e de escrita mesmo sendo professores de ciências (até mesmo eu, professora universitária). E tenho buscado as mais diferentes formas textuais que possam não apenas me ajudar a ensinar algum conceito científico mas, sobretudo, estimular a criticidade dos alunos.
Recomendo a leitura da crônica de Paulo Mendes Campos, intitulada "Automóvel: Sociedade Anônima" (presente na coleção Para Gostar de Ler - Crônicas, vol. 4), na qual encontrei um potencial crítico considerável a ser explorado sobre as relações de consumo em nossa sociedade, tangenciando questões tecnológicas. Devido à sua extensão, não reproduzo aqui.
Há ainda a crônica do "Ovo", de Luis Fernando Verissimo, que nos permite tecer considerações sobre o próprio funcionamento da Ciência e a divulgação científica. (Esta segue abaixo.)
Sem falar nas letras de músicas, algumas de Gilberto Gil, que a mim fascinam pela simplicidade e ao mesmo tempo um refinamento poético incrível. (Selecionei apenas uma do Gil, por conta de espaço.)
E existem também os clássicos. Destes, escolhi uma autora que me encanta: Cecília Meireles.
Espero que a poesia inspire nosso próximos dias e nossas ações docentes.
Acredito que todos somos professores de leitura e de escrita mesmo sendo professores de ciências (até mesmo eu, professora universitária). E tenho buscado as mais diferentes formas textuais que possam não apenas me ajudar a ensinar algum conceito científico mas, sobretudo, estimular a criticidade dos alunos.
Recomendo a leitura da crônica de Paulo Mendes Campos, intitulada "Automóvel: Sociedade Anônima" (presente na coleção Para Gostar de Ler - Crônicas, vol. 4), na qual encontrei um potencial crítico considerável a ser explorado sobre as relações de consumo em nossa sociedade, tangenciando questões tecnológicas. Devido à sua extensão, não reproduzo aqui.
Há ainda a crônica do "Ovo", de Luis Fernando Verissimo, que nos permite tecer considerações sobre o próprio funcionamento da Ciência e a divulgação científica. (Esta segue abaixo.)
Sem falar nas letras de músicas, algumas de Gilberto Gil, que a mim fascinam pela simplicidade e ao mesmo tempo um refinamento poético incrível. (Selecionei apenas uma do Gil, por conta de espaço.)
E existem também os clássicos. Destes, escolhi uma autora que me encanta: Cecília Meireles.
Espero que a poesia inspire nosso próximos dias e nossas ações docentes.
"Ovo" (Luis Fernando Verissimo)
Agora essa. Descobriram que ovo, afinal, não faz mal. Durante anos, nos aterrorizaram. Ovos eram bombas de colesterol. Não eram apenas desaconselháveis, eram mortais. Você podia calcular em dias o tempo de vida perdido cada vez que comia uma gema.
Cardíacos deviam desviar o olhar se um ovo fosse servido num prato vizinho: ver ovo fazia mal. E agora estão dizendo que foi tudo um engano, o ovo é inofensivo. O ovo é incapaz de matar uma mosca.
Sei não, mas me devem algum tipo de indenização. Não se renuncia a pouca coisa quando se renuncia ao ovo frito. Dizem que a única coisa melhor do que ovo frito é sexo. A comparação é difícil. Não existe nada no sexo comparável a uma gema deixada intacta em cima do arroz depois que a clara foi comida, esperando o momento de prazer supremo quando o garfo romperá a fina membrana que a separa do êxtase e ela se desmanchará, sim, se desmanchará, e o líquido quente e viscoso escorrerá e se espalhará pelo arroz como as gazelas douradas entre os lírios de Gileade nos cantares de Salomão, sim, e você levará o arroz à boca e o saboreará até o último grão molhado, sim, e depois ainda limpará o prato com pão. Ou existe e eu é que tenho andado na turma errada. O fato é que quero ser ressarcido de todos os ovos fritos que não comi nestes anos de medo inútil. E os ovos mexidos, e os ovos quentes, e as omeletes babadas, e os toucinhos do céu, e, meu Deus, os fios de ovos. Os fios de ovos que não comi para não morrer dariam várias voltas no globo. Quem os trará de volta? E pensar que cheguei a experimentar ovo artificial, uma pálida paródia de ovo que, esta sim, deve ter me roubado algumas horas de vida a cada garfada infeliz. Ovo frito na manteiga! O rendado marrom das bordas tostadas da clara, o amarelo provençal da gema... Eu sei, eu sei. Manteiga ainda não foi liberada. Mas é só uma questão de tempo.
Agora essa. Descobriram que ovo, afinal, não faz mal. Durante anos, nos aterrorizaram. Ovos eram bombas de colesterol. Não eram apenas desaconselháveis, eram mortais. Você podia calcular em dias o tempo de vida perdido cada vez que comia uma gema.
Cardíacos deviam desviar o olhar se um ovo fosse servido num prato vizinho: ver ovo fazia mal. E agora estão dizendo que foi tudo um engano, o ovo é inofensivo. O ovo é incapaz de matar uma mosca.
Sei não, mas me devem algum tipo de indenização. Não se renuncia a pouca coisa quando se renuncia ao ovo frito. Dizem que a única coisa melhor do que ovo frito é sexo. A comparação é difícil. Não existe nada no sexo comparável a uma gema deixada intacta em cima do arroz depois que a clara foi comida, esperando o momento de prazer supremo quando o garfo romperá a fina membrana que a separa do êxtase e ela se desmanchará, sim, se desmanchará, e o líquido quente e viscoso escorrerá e se espalhará pelo arroz como as gazelas douradas entre os lírios de Gileade nos cantares de Salomão, sim, e você levará o arroz à boca e o saboreará até o último grão molhado, sim, e depois ainda limpará o prato com pão. Ou existe e eu é que tenho andado na turma errada. O fato é que quero ser ressarcido de todos os ovos fritos que não comi nestes anos de medo inútil. E os ovos mexidos, e os ovos quentes, e as omeletes babadas, e os toucinhos do céu, e, meu Deus, os fios de ovos. Os fios de ovos que não comi para não morrer dariam várias voltas no globo. Quem os trará de volta? E pensar que cheguei a experimentar ovo artificial, uma pálida paródia de ovo que, esta sim, deve ter me roubado algumas horas de vida a cada garfada infeliz. Ovo frito na manteiga! O rendado marrom das bordas tostadas da clara, o amarelo provençal da gema... Eu sei, eu sei. Manteiga ainda não foi liberada. Mas é só uma questão de tempo.
A Ciência em si (Gilberto Gil e Arnaldo Antunes)
Se toda coincidência
Tende a que se entenda
E toda lenda
Quer chegar aqui
Tende a que se entenda
E toda lenda
Quer chegar aqui
A ciência não se aprende
A ciência apreende
A ciência em si
A ciência apreende
A ciência em si
Se toda estrela cadente
Cai pra fazer sentido
E todo mito
Quer ter carne aqui
Cai pra fazer sentido
E todo mito
Quer ter carne aqui
A ciência não se ensina
A ciência insemina
A ciência em si
A ciência insemina
A ciência em si
Se o que pode ver, ouvir, pegar, medir, pesar
Do avião a jato ao jaboti
Desperta o que ainda não, não se pôde pensar
Do sono eterno ao eterno devir
Como a órbita da Terra abraça o vácuo devagar
Para alcançar o que já estava aqui
Se a crença quer se materializar
Tanto quanto a experiência quer se abstrair
Do avião a jato ao jaboti
Desperta o que ainda não, não se pôde pensar
Do sono eterno ao eterno devir
Como a órbita da Terra abraça o vácuo devagar
Para alcançar o que já estava aqui
Se a crença quer se materializar
Tanto quanto a experiência quer se abstrair
A ciência não avança
A ciência alcança
A ciência em si.
A ciência alcança
A ciência em si.
Máquina Breve (Cecília Meireles)
O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.
Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.
terça-feira, 21 de maio de 2013
Das sutilezas da vida à (des)esperança na educação
Dizem que são nas sutilezas que se revelam os grandes aprendizados da vida. Na verdade, nem sei mesmo se alguém já disse isso mas é algo que me parece cada vez mais verossímil pelos relatos de alguns colegas professores e pela minha própria experiência no magistério.
Em uma rede social onde tenho um perfil, vira e mexe, tem algum professor contando um "caso" especial de algum aluno ou vivenciado em alguma turma ou escola. Sempre paro para ler todos porque sempre fico buscando nas sutilezas, nas entrelinhas (como uma pretensa analista de discurso que sou), um algo a mais, um sentimento velado e, até mesmo, o viver pelo olhar do outro.
Sinto falta de estar em sala de aula com adolescentes. Eu gostava muito de dar aulas no ensino fundamental e ver meus e minhas alunos/as se descobrindo, descobrindo o mundo. Era o que eu mais gostava no magistério na educação básica. É a tal "boniteza" que Paulo Freire falava.
Então, quando leio os relatos de meus colegas professores atuantes nas escolas é como se eu pudesse vivenciar novamente um cotidiano que não é mais o meu. E, devo confessar, que faço isso não por mero saudosismo mas também por medo. Medo de me isolar no universo acadêmico, nas pesquisas sobre a escola que acabam perdendo a escola de vista (às vezes nunca nem sequer a tiveram em vista de fato), de viver a ilusão dos "alimentadores de currículo Lattes".
A escola é uma instituição que me fascina, por vários motivos. Não pretendo listá-los todos porém devo assumir um, talvez o que mais mexe comigo: acredito, ainda, que a escola tem poder de transformar a sociedade. E quando digo escola, no fundo estou me referindo aos professores, estes mesmos que eu contribuo para sua formação em minhas aulas na universidade. Por isso, acredito na formação de professores e encontrei ali o meu nicho e meu cenário de atuação. Mas tenho percebido que os professores que estão na escola são apenas um componente do sistema e, como disse um colega que muito admiro, se o sistema como um todo não mudar continuaremos agindo isoladamente.
Esse post que está se conformando como um depoimento tem muito a ver com uma situação que vivi recentemente e que muito me impactou. De forma bastante resumida tratou-se de participar de uma conversa de duas professoras aposentadas das redes municipal e estadual do RJ completamente desiludidas com a educação. O que uma delas disse, jamais me esquecerei: "eu já tive pena, eu já me importei, agora eu não sinto mais nada". (Entendam que não estou criticando em qualquer ponto a fala desta professora.)
A realidade que tira a esperança, que nos imobiliza, que quer que não nos importemos mais com um outro ser humano está aí. É a realidade da nossa sociedade. Mas eu descobri que eu ainda não estou pronta para desistir, nem quero sentir pena, fazer caridade. Eu - e sei que muito colegas professores também - quero justiça, igualdade social. E nem que seja por meio das minhas "aulinhas" (termo que já ouvi de professores universitários), das minhas pesquisas que "apenas" servem para encher currículo e comprar um equipamento
e das minhas ideias (que são muitas, por sinal) manterei-me firme no meu lugar de professora.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
O "deboche" nas redações do ENEM
Hoje ouvia na rádio o jornalista Ricardo Boechat comentar um dos novos "critérios" a ser levado em consideração na correção das redações do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), a saber: o candidato que usar o "deboche" como estilo de escrita será punido. Assim como o jornalista eu fiquei perplexa, afinal, o que se espera de um aluno recém-egresso da educação básica? Não é o mínimo de senso crítico sobre as mais variadas questões presentes em nossa sociedade? E uma das formas de se expressar uma crítica não é o deboche? O que temem os responsáveis pelas provas do ENEM e, em última instância, o próprio Governo já que é ele quem organiza o exame? Terem suas políticas públicas questionadas?!
Tanto falamos em nossas aulas em cursos de formação de professores sobre a necessidade fundamental de sermos docentes que exploram as relações entre Ciência e Sociedade, de não desvincularmos o ensino dos conteúdos científicos das questões educacionais mais amplas as quais, por serem sociais por natureza, ajudam a manter ou a romper com a estrutura em que vivemos. São tantos os professores que estão empenhados em suas aulas a não apenas preparar seus alunos para conseguirem uma vaga nas universidades mas para se tornarem "mentes pensantes", pessoas que buscarão a igualdade social, cultural, econômica para todos e o próprio Ministério da Educação quer "regular" formas de expressão que questionam a sociedade, mesmo que seja via deboche?
Aliás, o que é isso que eles estão denominando "deboche"?
Eu, enquanto professora, pesquisadora e formadora de professores que se preocupa com questões relacionadas à leitura e à escrita mesmo em aulas de ciências fico chocada ao tomar conhecimento de que esse tipo de intolerância está sendo propagada em um exame nacional de educação. Nossos alunos saem do ensino médio escrevendo mal? Muitos saem mesmo! E este não deveria ser o foco do Ministério da Educação? Não entendam que eu estou defendendo menor rigorosidade na correção das redações pois não há como esperar que, após ter entrado na universidade, o candidato - agora aluno universitário - seja alfabetizado e aprenda a interpretar e produzir textos. É a velha questão do "vai empurrando o aluno para a série seguinte, aprovando e deixa ele se queimar lá na frente".
Fico com a sensação de que novamente o "eixo central" da educação está sendo deslocado e que está se fazendo cada vez mais necessário nos perguntarmos sobre o que queremos da Educação nesse país. Onde está o nosso Plano Nacional de Educação até hoje?
O incômodo do deboche é que somente quem percebe uma situação passível de crítica/contradição é capaz de se mostrar alfabetizado politicamente. Provavelmente, nossos governantes não desejam isso.
sábado, 4 de maio de 2013
O que ensinar nas aulas de ciências? Um "bom" argumento para o currículo mínimo escolar.
Esta semana, em aulas de diferentes disciplinas na Biologia, surgiu uma questão que parece se constituir relevante para alguns licenciandos: a (suposta) importância da existência de um currículo comum nacional.
Ao falarmos de abordagem conceitual ou temática, seleção dos conteúdos de ensino, uso de metodologias baseadas ou não na perspectiva Freiriana, eles expuseram o conflito entre a opção pela valorização da realidade do aluno e a necessidade deste mesmo aluno "acompanhar" o ensino oferecido em diferentes escolas do país.
É aquela velha discussão: será que é justo selecionar conteúdos que dizem respeito ao entorno social imediato do aluno em detrimentos dos conteúdos "universais" já estabelecidos e consolidados no currículo escolar? Será que um aluno da escola pública, ao ser educado dentro dessa filosofia mais contextualizada ou problematizadora não sairia atrás na corrida pelas vagas no ENEM quando em competição com os alunos (treinados) pelas escolas particulares? Será que, ao regionalizar demais o currículo escolar, o aluno não enfrentará dificuldades quando for transferido de escola em seu próprio estado ou para outra região do país?
A ideia do currículo mínimo nacional - que vem se tornando cada vez mais reduzido, sobretudo em nível estadual e municipal - abarca a ideologia de que uma educação justa é a "Educação para todos". Mas o que está por trás desse slogan da "Educação para todos"? É oferecer o acesso à escola pública (de que qualidade?), aos conteúdos de ensino e às oportunidades de socialização que o ambiente escolar proporcionaria? Pesquisadores do campo do currículo, dentro de uma vertente crítica, ajudam-nos a refletir sobre essas questões. Afinal, o currículo não é/está assim por acaso. Ele foi construído, selecionado, elaborado por pessoas que tinham determinados interesses e objetivos (não apenas educacionais). Ele é fruto de disputa de poder, de status, de espaço-tempo na escola.
O slogan da "Educação para todos" acaba justificando/reforçando a ideia de que já que queremos que todos sejam educados façamos isso da forma mais homogênea possível. Logo, todos os alunos que cursam o sétimo ano do ensino fundamental devem, obrigatoriamente, aprender conteúdos relacionados ao corpo humano nas aulas de ciências em todo o país. Mas quais conceitos devem ser ensinados-aprendidos sobre o corpo humano? Anatomia, fisiologia, genética? Esse corpo é o mesmo daquele de um aluno de uma escola no sertão nordestino e de outra no centro da cidade de São Paulo? Há como ensinar da mesma forma esses conceitos?
O que acho mais relevante destacar nesse debate (que se estende amplamente e que não teria como ser esgotado aqui) é que, ao adotar uma metodologia na qual a seleção dos conteúdos não é tomada como "natural" e, sim, fruto de um processo de problematização e de tomada de conhecimento da realidade social da comunidade escolar, o professor (ou a equipe docente) está deslocando o foco central da questão. Ele passa a refletir não apenas sobre a relevância de determinados conteúdos curriculares mas, além disso, ele se questiona sobre a finalidade do ensino de ciências.
Sou ampla defensora do acesso ao conhecimento científico por todos os alunos de todas as escolas brasileiras. Mas não acredito que devemos educar (cientificamente) todos da mesma maneira. O aluno da escola pública tem que ter seu direito garantido ao acesso ao conhecimento mais elaborado possível sim, não só para competir em condições iguais com o aluno da rede particular no vestibular (pensando aqui dentro desse paradigma de que o vestibular é o objetivo último do ensino formal), mas sobretudo para ter a oportunidade de também refletir sobre seu entorno social, sobre as condições (desiguais) sociais, econômicas, culturais que ele sente dia a dia na sua pele.
Acho que meus alunos, futuros professores, ainda irão conviver com esse conflito de forma mais real quando estiverem atuando profissionalmente. Alguns, provavelmente, se ajustarão ao sistema, adotarão o currículo mínimo tal qual lhe foi imposto. Outros, não.
Ao falarmos de abordagem conceitual ou temática, seleção dos conteúdos de ensino, uso de metodologias baseadas ou não na perspectiva Freiriana, eles expuseram o conflito entre a opção pela valorização da realidade do aluno e a necessidade deste mesmo aluno "acompanhar" o ensino oferecido em diferentes escolas do país.
É aquela velha discussão: será que é justo selecionar conteúdos que dizem respeito ao entorno social imediato do aluno em detrimentos dos conteúdos "universais" já estabelecidos e consolidados no currículo escolar? Será que um aluno da escola pública, ao ser educado dentro dessa filosofia mais contextualizada ou problematizadora não sairia atrás na corrida pelas vagas no ENEM quando em competição com os alunos (treinados) pelas escolas particulares? Será que, ao regionalizar demais o currículo escolar, o aluno não enfrentará dificuldades quando for transferido de escola em seu próprio estado ou para outra região do país?
A ideia do currículo mínimo nacional - que vem se tornando cada vez mais reduzido, sobretudo em nível estadual e municipal - abarca a ideologia de que uma educação justa é a "Educação para todos". Mas o que está por trás desse slogan da "Educação para todos"? É oferecer o acesso à escola pública (de que qualidade?), aos conteúdos de ensino e às oportunidades de socialização que o ambiente escolar proporcionaria? Pesquisadores do campo do currículo, dentro de uma vertente crítica, ajudam-nos a refletir sobre essas questões. Afinal, o currículo não é/está assim por acaso. Ele foi construído, selecionado, elaborado por pessoas que tinham determinados interesses e objetivos (não apenas educacionais). Ele é fruto de disputa de poder, de status, de espaço-tempo na escola.
O slogan da "Educação para todos" acaba justificando/reforçando a ideia de que já que queremos que todos sejam educados façamos isso da forma mais homogênea possível. Logo, todos os alunos que cursam o sétimo ano do ensino fundamental devem, obrigatoriamente, aprender conteúdos relacionados ao corpo humano nas aulas de ciências em todo o país. Mas quais conceitos devem ser ensinados-aprendidos sobre o corpo humano? Anatomia, fisiologia, genética? Esse corpo é o mesmo daquele de um aluno de uma escola no sertão nordestino e de outra no centro da cidade de São Paulo? Há como ensinar da mesma forma esses conceitos?
O que acho mais relevante destacar nesse debate (que se estende amplamente e que não teria como ser esgotado aqui) é que, ao adotar uma metodologia na qual a seleção dos conteúdos não é tomada como "natural" e, sim, fruto de um processo de problematização e de tomada de conhecimento da realidade social da comunidade escolar, o professor (ou a equipe docente) está deslocando o foco central da questão. Ele passa a refletir não apenas sobre a relevância de determinados conteúdos curriculares mas, além disso, ele se questiona sobre a finalidade do ensino de ciências.
Sou ampla defensora do acesso ao conhecimento científico por todos os alunos de todas as escolas brasileiras. Mas não acredito que devemos educar (cientificamente) todos da mesma maneira. O aluno da escola pública tem que ter seu direito garantido ao acesso ao conhecimento mais elaborado possível sim, não só para competir em condições iguais com o aluno da rede particular no vestibular (pensando aqui dentro desse paradigma de que o vestibular é o objetivo último do ensino formal), mas sobretudo para ter a oportunidade de também refletir sobre seu entorno social, sobre as condições (desiguais) sociais, econômicas, culturais que ele sente dia a dia na sua pele.
Acho que meus alunos, futuros professores, ainda irão conviver com esse conflito de forma mais real quando estiverem atuando profissionalmente. Alguns, provavelmente, se ajustarão ao sistema, adotarão o currículo mínimo tal qual lhe foi imposto. Outros, não.
domingo, 28 de abril de 2013
Há o que comemorar no Dia da Educação?
Hoje, dia 28 de abril, comemora-se o Dia da Educação. E daí me vem logo à mente a pergunta: o que seria da
Educação sem os educadores?
Em
post anterior eu cheguei a comentar sobre a inadequada redução da Educação ao
Ensino. Acredito que ao fazermos isso restringimos a atividade docente à
transmissão de conteúdos. Ensinamos muito mais do que isso, não é mesmo?
Concordo
plenamente que os alunos devem ser educados em casa, pelos pais. Sou mãe também
e sei que não devo delegar minhas atribuições às professoras de minha filha. Mas não podemos nos isentar de nossa responsabilidade na
formação dos valores e do caráter dos educandos. Eles, muitas vezes, ficam mais
tempo conosco, na escola, do que com seus próprios pais. Somos exemplos
para tudo e qualquer situação de vida. Porém, não somos sujeitos que vivem em
um universo paralelo e trabalhamos sob condições que nos são impostas pelo
Governo em suas diferentes instâncias.
Por
isso, gostaria de aproveitar a data para comentar outro ponto: o quanto a
Educação tem recebido de investimento em nosso país. Até que ponto a Educação
tem sido considerada prioridade pelos nossos governantes? Em reportagem
recente na revista Nova Escola (abril/2013) comenta-se um dos motivos pelos
quais o Plano Nacional de Educação, que deveria estar em vigência desde 2011,
ainda não foi posto em ação: o valor que deve ser investido na Educação. De acordo com a revista, “o Brasil e a Coreia
do Sul investem praticamente o mesmo percentual do PIB em Educação”, porém
ocupamos posições bem distantes no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de
Alunos). Por que essa diferença? O Brasil gasta 2.647 dólares por aluno por ano
– na educação básica e ensino superior – enquanto que a Coreia do Sul gasta
três vezes mais (a título de curiosidade os EUA gastam mais de 15.000 dólares
por aluno). Sem mencionar a “dívida” histórica que o Brasil tem devido ao
descaso com a Educação pública há mais de um século. A reportagem conclui que “dinheiro
por si só não é capaz de resolver de forma mágica nenhum problema de nosso
ensino. Para que isso aconteça, é preciso garantir a boa gestão do investimento”. Concordo plenamente. Em tempos em que tablets são comprados e distribuídos de forma pouco criteriosa por algumas secretarias de educação há mesmo que se repensar a gestão dos recursos destinados à Educação.
Para
encerrar, coloco duas questões: como, nós educadores, que prezamos pela
qualidade da Educação pública brasileira, poderemos continuar nos dedicando à
melhoria do ensino se nem um Plano Nacional de Educação consegue ser aprovado
por conta de questões financeiras? Se a Educação não é prioridade, como não nos
sentirmos abandonados pelo Estado? Muitos de nós estão desistindo, outros
resistem, mas não podemos deixar que continuem passando a imagem de que a
“culpa” pela “má” qualidade da Educação no Brasil deve-se ao desinteresse e
descompromisso dos professores. Questionemos, junto toda a sociedade, essa
transferência de deveres referentes à Educação.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
A ilusão da solidão no ato educativo
Não. Não estamos sozinhos. Tem muita gente querendo mudar o mundo em que vive pelo simples fato de não gostar desse mundo que está aí.
Ontem assisti à aula magna proferida por uma juíza na faculdade onde trabalho e tive a grata surpresa de saber que têm pessoas que pensam como eu, que compartilham de alguns ideais e, o mais importante, estão atuando de alguma forma em busca da mudança. E eu acredito que a mudança começa no âmbito individual, não como uma imposição de fora para dentro, visando apenas à mudança de comportamentos ditada por aqueles que detêm o poder. Mas sim naquela mudança baseada na conscientização e na emancipação que somente é possível quando o sujeito se apropria do conhecimento e questiona o seu lugar e sua função na sociedade. Aí sim, ele consegue questionar a própria sociedade em que ele participa e contribui para sua constituição.
É aqui o lócus da escola, da universidade, da educação formal de uma forma mais ampla. Nós professores ensinamos conteúdos, valores, atitudes por meio de nossas aulas e nossos exemplos. E se perdermos a esperança de que temos um papel essencial para a transformação perderemos a própria essência do ato educativo.
Eu quero sim que meus alunos, futuros professores de ciências, sejam reflexivos e críticos. Quero também que eles conheçam e ensinem (bem) os conteúdos das Ciências Biológicas, que se mantenham atualizados, que percebam que eles produzem conhecimento. Mas também almejo que eles sejam criativos - algo que a juíza mencionou ontem em sua aula. Como ela mesma disse: "há espaço para o novo". Na escola não ensinamos apenas o conhecimento, a cultura que foram produzidos e acumulados ao longo da história pela humanidade. A escola se reinventa a todo momento e o professor criativo é responsável por isso, pela mudança.
Se, por um lado, esse mundo pós-moderno nos dá a sensação de que somos cada vez mais fragmentados e, ao mesmo tempo, compartilhamos de "verdades" as quais nem nos damos conta que temos, por outro, estamos aí: agindo no mundo o tempo todo.
E quando esse agir é consciente, ele passa ser libertador. E, então, já não estamos mais sozinhos.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Sobre a "perda" de tempo na escola
Escola virou sinônimo de chatice, obrigação, perda de tempo. Afinal, com tantas coisas mais interessantes para se fazer para que ir à escola?
Tem muito aluno que pensa e fala isso mesmo. Mas será que isso é verdade para 100% dos alunos em todos os momentos de sua vida? Sinceramente, não acredito. Afinal, onde conhecemos (e convivemos) com pessoas de nossa idade, fazemos amizades, falamos besteiras, criticamos nossos pais, compartilhamos nossas ideias, marcamos o cinema, comentamos sobre um novo vídeo no YouTube? E por aí vai...
A escola é esse espaço que não serve "apenas" para ensinar e aprender conteúdos. Nela, enquanto alunos, passamos a nos constituir como seres sociais. Acontece que nós professores - e todo o sistema educacional - damos tanta ênfase ao conteúdo (e tudo que decorre daí) que os alunos realmente passam a acreditar que somente vão à escola para decorar coisas, fazer provas e passar de ano. Não estou querendo dizer que não temos a obrigação de ensinar conteúdos científicos pelos mais diversos motivos. Claro que temos! Mas o ensino das ciências não pode se reduzir a isso (algo consensual entre a comunidade acadêmica) e, de fato, nunca se reduz. No entanto, temos que fazer com que nossos alunos percebam que não estão indo à escola "apenas" para perder tempo de suas preciosas infâncias e adolescências.
Quando os alunos se divertem e conseguem perceber relações entre as perguntas que movem suas vidas e as questões centrais das ciências eles sentem prazer em ir à escola. Não é a toa que existem os professores preferidos, aqueles cujas aulas todos aguardam com ansiedade e, anos depois, são lembrados com tanto carinho. Será que esses professores são "apenas" empáticos? Que técnica seria essa que prende a atenção dos alunos e os fazem esquecer do celular?
A escola se reinventa o tempo todo simplesmente porque ela é feita por pessoas. E gente é inquieta. Crianças e adolescentes, então... E todos eles estão cada vez mais antenados, plugados e conectados. Não sou muito adepta desse discurso de que a escola tem que incorporar as novas tecnologias para "atrair" a molecada. Não é isso que garantirá a melhoria do ensino tampouco da escola pública.
A escola por ser esse organismo vivo é complexa e dinâmica. Mas por que será que os alunos têm a impressão de que ela é lenta, estática e parece que parou no tempo? Não se trata de buscarmos culpados mas talvez de refletirmos um pouco sobre essa visão dos estudantes.
Tem muito aluno que pensa e fala isso mesmo. Mas será que isso é verdade para 100% dos alunos em todos os momentos de sua vida? Sinceramente, não acredito. Afinal, onde conhecemos (e convivemos) com pessoas de nossa idade, fazemos amizades, falamos besteiras, criticamos nossos pais, compartilhamos nossas ideias, marcamos o cinema, comentamos sobre um novo vídeo no YouTube? E por aí vai...
A escola é esse espaço que não serve "apenas" para ensinar e aprender conteúdos. Nela, enquanto alunos, passamos a nos constituir como seres sociais. Acontece que nós professores - e todo o sistema educacional - damos tanta ênfase ao conteúdo (e tudo que decorre daí) que os alunos realmente passam a acreditar que somente vão à escola para decorar coisas, fazer provas e passar de ano. Não estou querendo dizer que não temos a obrigação de ensinar conteúdos científicos pelos mais diversos motivos. Claro que temos! Mas o ensino das ciências não pode se reduzir a isso (algo consensual entre a comunidade acadêmica) e, de fato, nunca se reduz. No entanto, temos que fazer com que nossos alunos percebam que não estão indo à escola "apenas" para perder tempo de suas preciosas infâncias e adolescências.
Quando os alunos se divertem e conseguem perceber relações entre as perguntas que movem suas vidas e as questões centrais das ciências eles sentem prazer em ir à escola. Não é a toa que existem os professores preferidos, aqueles cujas aulas todos aguardam com ansiedade e, anos depois, são lembrados com tanto carinho. Será que esses professores são "apenas" empáticos? Que técnica seria essa que prende a atenção dos alunos e os fazem esquecer do celular?
A escola se reinventa o tempo todo simplesmente porque ela é feita por pessoas. E gente é inquieta. Crianças e adolescentes, então... E todos eles estão cada vez mais antenados, plugados e conectados. Não sou muito adepta desse discurso de que a escola tem que incorporar as novas tecnologias para "atrair" a molecada. Não é isso que garantirá a melhoria do ensino tampouco da escola pública.
A escola por ser esse organismo vivo é complexa e dinâmica. Mas por que será que os alunos têm a impressão de que ela é lenta, estática e parece que parou no tempo? Não se trata de buscarmos culpados mas talvez de refletirmos um pouco sobre essa visão dos estudantes.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Ensinar requer afetividade e amorosidade pelo aluno
O título deste post é de minha autoria porém os créditos
são todos de Paulo Freire. Essa afirmação veio-me à mente em uma situação
emblemática de minha atuação como professora do ensino fundamental. Algo que eu
acredito que 99,9% dos professores já enfrentaram.
Não
me lembro ao certo em que bimestre estávamos. Era uma turma de 6ª série (7º ano
atual), mais especificamente, a turma 62 que tinha alunos de variadas
personalidades. Gostava de dar aulas naquela turma mas o ambiente estava
ficando cada vez mais tumultuado por causa de alguns alunos agitados. Um deles
era o Filipe. Ele era um menino que gostava de chamar atenção dos colegas,
fazia piada de qualquer coisa que eu ou algum outro aluno dissesse e estava,
além dos problemas de comportamento, com notas baixas em várias disciplinas.
O
Filipe estava começando a fazer com que eu atingisse o meu limite de paciência.
Sentia que ele estava me desafiando, testando. Porém, eu decidi que não iria
confrontá-lo perante a turma. Senti que era isso o que ele queria. Então, minha
primeira providência (frustrada, diga-se de passagem) foi chamá-lo para uma
conversa fora da sala. Disse a ele alguma coisa do tipo: “Filipe, eu sei o que
você está tentando fazer comigo, com os outros professores. Isso não é legal para você, nem para mim ou seus colegas. Acho
melhor você começar a se comportar porque quem mais perde com isso é você”. O discurso cheio de moral não serviu para nada e ele continuou fazendo as brincadeiras como de costume.
Quando
eu já não suportava mais a situação, pois ele e alguns outros alunos estavam
impedindo que eu desse aula, me veio esse pensamento: “Paulo Freire disse que é
preciso ter amor e respeito ao educando”. Não que eu não gostasse do menino,
muito pelo contrário, acontece que nessas ocasiões você perde seu centro. Fiquei repetindo essa frase
como um mantra até que me veio a ideia: faria do Filipe meu aliado, assumiria
para mim mesma o desafio de torná-lo o aluno mais participativo e que se
sentisse amado e respeitado por mim. Certamente que a ocasião propícia para colocar
isso em prática não demorou para acontecer. Em algum momento da aula ele fez
uma piada. Ao invés de chamar sua atenção ou agir de forma punitiva cheguei perto dele e fiz algum comentário bem baixinho e engraçado sobre o que ele tinha acabado de
dizer em alto e bom som a todos da turma. Ele riu e o resto do pessoal ficou
curioso para saber o que eu tinha falado. Pronto! A partir desse dia, as coisas
entre nós melhoraram consideravelmente. Não que ele nunca mais tenha agido
daquela maneira típica de adolescente só que ele não atrapalhava mais
minhas aulas porque quando eu pedia para parar ou para ele dar uma segurada ele
se controlava.
Eu
e Filipe temos contato até hoje (um viva para as redes sociais!) e pedi
autorização a ele para usar seu verdadeiro nome neste texto. Acho essa coisa de
pseudônimo muito chata nos textos acadêmicos. E ele acaba de me lembrar que em
uma festa surpresa de aniversário que ele e os colegas organizaram para mim eu
dei o primeiro pedaço de bolo para ele. Não foi uma “tática” ou “estratégia”
para mantê-lo na linha não. Foi um gesto de coração porque ele se tornou um dos
meus queridos alunos com os quais eu aprendo tanto sobre ser professora e como
me tornar uma pessoa melhor. Um abraço apertado, querido Filipe Francisco!
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Voz do Professor - Kristian Wessman
Inicio este depoimento lembrando do meu discurso de quando entrei na faculdade de Biologia, em que dizia que somente me tornaria professor se tudo desse errado. Era o meu plano B. E foi com este espírito que trilhei a minha graduação, buscando desde o princípio laboratórios de pesquisa onde pudesse dar início ao meu objetivo de seguir a carreira de pesquisador. O curioso desta escolha é que ela foi baseada principalmente nas imagens que cada uma das carreiras passam para a sociedade. O pesquisador sempre é uma pessoa bem sucedida e respeitada, já o professor... Bem, o professor é aquele coitado que ganha um salário de fome e constantemente é desrespeitado por governos, pais de alunos e alunos, não necessariamente nesta ordem. Foram com estas impressões que entrei na faculdade e são estas impressões que continuo vendo atualmente em sala de aula quando consulto os alunos sobre que carreira pretendem seguir.
Pois bem, então por que me tornei professor? Simplesmente porque estas duas imagens com as quais entrei na faculdade foram modificadas ao longo do tempo. Vi que a pesquisa não é, principalmente no Brasil, tão valorizada quanto parece. Existe a carência de bens materiais e material humano para que realmente ela se desenvolva. E ao mesmo tempo, pude presenciar ao longo na minha prática de ensino que aqueles “monstros”, também chamados de alunos, não eram tão perigosos assim. Foi na prática de ensino que percebi como ser professor pode modificar de forma muito mais imediata a sociedade. Ou seja, encontrei na sala de aula o que já não encontrava no laboratório: uma função clara e imediata para tudo o que havia aprendido na faculdade.
Assim que conclui a graduação, já me vi atuando como professor nas redes pública estadual e privada. E vi que, principalmente na rede pública, existe uma tendência a esperar que as mudanças aconteçam. Porém eu acredito que nós devemos ser parte da mudança. Neste momento ouvi muito aquele discurso de que eu queria mudar a escola porque ainda estava cheio de gás, recém-formado, que o tempo me mostraria que de nada adianta nossa vontade. Ou seja, dificilmente encontrava palavras animadoras vindas de colegas, principalmente daqueles que já tinham mais tempo de profissão.
Entretanto sou inquieto por natureza. Não gosto de perder tempo esperando as coisas acontecerem. E felizmente fui lotado em uma escola onde os diretores dão liberdade para que projetos sejam propostos e executados. E o meu projeto pessoal foi transformar uma sala ociosa em laboratório de Ciências. O início de 2009 foi marcado pelo improviso, com mesas de refeitório sendo usadas como bancadas. Este simples fato fez com que os alunos se aproximassem e se interessassem mais pelas aulas. A impressão que tenho é que perceberam o meu interesse em modificar algo e resolveram retribuir com o interesse deles.
O ano de 2010 foi marcado por duas gratas surpresas. A primeira foi a liberação de uma verba por parte do governo federal para a execução de um projeto proposto pela escola. A verba foi transformada em pequenos insumos para realização de aulas práticas e bancadas de laboratório, e assim as mesas improvisadas retornaram para o refeitório. A segunda foi a aprovação de um projeto de extensão universitária para ser executado em 2011. Através deste projeto, inúmeros materiais foram comprados para equipar o laboratório e posso dizer que hoje tenho à disposição uma estrutura que dificilmente é encontrada em escolas da rede estadual para o ensino de Ciências. O laboratório conta com frigobar, placa aquecedora, modelos anatômicos, computador, microscópio e lupa com câmera para exibição no data-show, vidrarias, entre outros materiais. Este projeto trouxe ainda o programa PIBIC-EM para a escola, e ao longo de 2012 tivemos um aluno bolsista do CNPq realizando um projeto sob minha orientação e do grupo parceiro em extensão universitária.
Creio que não preciso descrever o quanto estes projetos modificaram para melhor o interesse dos alunos pelas aulas de Biologia. Hoje sou cobrado quando passo muito tempo sem dar aulas neste espaço, e até mesmo pais de alunos já cobraram que os professores da escola utilizassem este espaço mais vezes. É gratificante perceber que os frutos deste projeto já são colhidos. E sempre que vejo estes frutos, me pergunto onde estariam se eu tivesse dado ouvidos aos que me disseram que de nada adiantaria a minha vontade em mudar a realidade. Não quero com isto dizer que problemas não existem (e são muitos), mas sim que não devemos nos entregar a eles.
Kristian Wessman - Professor de Ciências e Biologia das redes públicas estadual e municipal do RJ e da rede particular. Aqui descreve sua atuação no CIEP 369 Jornalista Sandro Moreyra em Duque de Caxias, RJ.
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